Mudança deu o tom. Adaptabilidade, o caminho. #Inclusão, a ferramenta. E coragem, a força motriz. Ainda não há respostas prontas para resolver todas as questões do momento de transformação e disrupção que vivemos.
Quando pensamos em um campeão olímpico, capitão e ídolo de uma nação, logo lembramos das medalhas, do peixinho em quadra, da celebração. Mas rapidamente também conseguimos imaginar (e até identificar) a pressão, a superação dos desafios e a complexidade de gerir e saber unir o time para um objetivo em comum. Não por acaso o multicampeão do vôlei Bruno Rezende, o Bruninho, além de atuar em quadra, hoje também fala sobre liderança e saúde mental. Uma aula sobre alta performance, humanidade e coletividade.
Bruninho participou do Humanship Experience, encontro para mais de 100 lideranças de RH, realizado no final de novembro, no interior de São Paulo. Ao seu lado no palco estava Felipe Calbucci, CEO Latam da TotalPass Brasil, que conduziu o bate-papo marcado por insights e inspiração a partir da sua maneira de liderar. Assuntos também abordados em seu livro recém-lançado Entre Sombras e Vitórias (Editora Sextante).
Antes de falar para o público, Bruninho deu uma entrevista exclusiva à Humanship. Veja os pontos altos do papo entre Bruno e Calbucci e a nossa conversa com o campeão olímpico.
O mergulho do atleta no autoconhecimento e o cuidado com sua saúde mental vieram da parceria e mentoria com Giuliano Milan, após o gosto amargo da medalha de prata nas Olimpíadas de Londres, em 2012. Hoje, Bruno reconhece que naquele momento enfrentou um burnout e essa busca por ajuda foi crucial.
“Precisei buscar um caminho diferente para encontrar outras maneiras de evoluir. Sentia que a parte mental era algo que eu precisava desenvolver para me tornar um atleta ainda mais completo e um ser humano mais equilibrado no dia a dia.”
Sua jornada na mentoria iniciou com foco na presença. Técnicas de respiração – como a contagem –, meditação, mindfulness e frases de mentalização foram, e ainda são, grandes aliados para administrar a ansiedade e manter o atleta “no eixo”, como ele diz.
Para Bruno a presença é um dos principais pontos de atenção para o sucesso de sua liderança. Segundo multicampeão, ao se manter com foco no momento presente é possível perceber o outro e extrair o melhor de quem está ao seu lado.
Para Bruno, o primeiro passo do desenvolvimento de sua forma de liderar foi entender, de fato, quem eram as pessoas que estavam ao seu lado e, principalmente, parar de julgá-las: “Precisei deixar de querer que elas fossem como eu. Isso foi fundamental para que eu começasse o processo de humanizar e criar conexões cada vez mais fortes”.
Segundo ele, é a partir desse olhar atento e sem julgamento para o outro que conseguimos tirar o melhor das pessoas.
Colocar o time em primeiro lugar é fundamental tanto no vôlei – o esporte mais coletivo de todos, segundo o atleta – quanto dentro de qualquer empresa, afirma Bruninho. Porque, no fim do dia, estão todos juntos por um objetivo em comum. “Nós não conquistamos nada sozinho. Eu dependo de cada um deles, de quem vai estar comigo no dia a dia”.
Refletir sobre como pode ser o melhor para a equipe é um exercício constante. “Nem sempre você precisa do mais talentoso dentro do time, mas sim o que consegue tirar o melhor de cada um. A visão do coletivo vem antes de você.”
A “fome” de aprender, de evoluir, e a determinação também fazem diferença, segundo Bruno. “Eu prefiro ir para a guerra com quem eu sei que vai fazer de tudo para defender aquela trincheira, do que o cara mais talentoso que talvez não tenha essa mesma vontade de se doar pelos outros, pelo projeto, pelo objetivo.”
Ser filho do Bernardinho, um dos maiores, e mais emblemáticos, treinadores do Brasil tem suas influências, ônus e bônus. Disciplina e dedicação vêm de berço. “Ele não mordia a camisa em casa, não se enforcava com o fone ou batia a bola no chão, mas o fator disciplina sempre foi muito forte.”
Nos 20 anos de seleção, pai e filho viveram transformações na maneira de liderar e cobrar. Bruno reforça que vivemos outra geração, outro mundo, onde existe uma linha tênue que separa a cobrança e o cuidado. “Cobrança sem cuidado gera esgotamento, cuidado sem cobrança gera zona de conforto.” E aí está a importância de gerar conexão forte e lealdade. “As pessoas precisam entender que a cobrança é positiva. Que só existe cobrança porque o outro acredita em você.”
Com o pai Bruno também aprendeu a sempre pensar no desafio seguinte. Mas hoje tenta trazer para vida de Bernardinho o valor de celebrar mais no dia a dia, inclusive as pequenas conquistas. “Tem aquela frase de efeito ‘foco, força e fé’, e eu brinco que ele precisa de um pouquinho mais de F@$%-se. Mas, brincadeiras à parte, eu sinto muito orgulho de ser filho dele, não só pelo que ele representa, mas pelo que é no dia a dia”.
Humanship – Quando você se deu conta que o seu aprendizado no esporte poderia contribuir para as lideranças das organizações?
Bruno – Eu vejo cada vez mais no mundo corporativo as pessoas buscando líderes do esporte, porque, assim como na vida, o esporte é um grande exemplo de superação, de inúmeros valores que são essenciais também dentro de uma empresa. Acho que muito daquilo que a gente vive dentro de um time é muito necessário também para as pessoas dentro do mundo corporativo. Com a minha experiência dentro de quadra, através das vivências ao longo desses meus anos, acredito poder transmitir coisas que possam ser importantes dentro de um grupo que vive sob pressão, que vive em alta performance tendo que entregar resultados.
H – São muitos os paralelos entre as lideranças do mundo corporativo e os líderes dentro das quadras, como a gestão de pessoas, a pressão, a superação dos desafios…
B – O principal dentro de um esporte coletivo é a gestão de pessoas, que é fundamental, e acredito que dentro do mundo corporativo também seja.
H – Sua parceria com o Giuliano Mila já tem mais de 10 anos (começou em 2013). Você sente que foi uma virada de chave na sua busca pelo autoconhecimento?
B – Totalmente. Sempre que falo sobre isso, brinco que tem o AG e o DG (antes e depois do Giuliano). Porque, de certa maneira, abriu a minha cabeça para esse lado da saúde mental, da liderança, do entendimento, da inteligência emocional.
Sempre tive uma parte de liderança um pouco inconsciente. Sempre fui um cara muito agregador, sempre gostei de motivar, mas de uma maneira que talvez eu ainda julgasse demais as pessoas num primeiro momento.
Ali eu comecei a ter um entendimento muito maior, em relação às emoções, em relação a como lidar com os meus companheiros ou com situações de estresse. A ter ferramentas para a saúde mental, que foram fundamentais para o meu crescimento e amadurecimento. Porque a gente pensa que o atleta é só a parte física, técnica, mas tem a parte mental que é fundamental também e pouco se falava há 15 anos.
H – Novak Djokovic (ícone do tênis) diz que um dos grandes diferenciais da alta performance é a força mental para voltar rápido ao foco depois de um erro. Você concorda que essa recuperação, o tempo que fica e volta da emoção ruim faz diferença?
B – É preciso treinar para chegar nesse ponto. Foram coisas que nós fizemos ao longo do tempo, criando métodos e ferramentas. Eu era um cara que pós-derrota era o pior para ficar perto. Continuo não gostando de perder, mas ao longo do tempo eu fui criando métodos e situações que diminuem esse tempo de recuperação. Não vou deixar de ser o Bruno, mas hoje consigo lidar melhor com isso, consigo voltar mais rápido ao meu eixo.
H – Você reforça que saúde mental é treino. Quais são os melhores exercícios?
B – Para mim, o principal é a respiração, a meditação, o mindfulness, que é a atenção para o momento. Vivemos uma era de ansiedade, de estar sempre pensando no futuro ou no que aconteceu, no boleto que tem que pagar, e, muitas vezes esquecemos do que fazemos naquele momento, no momento presente, que é o único momento que realmente vale, né.
E no mundo, como num RH ou qualquer outra área, a gente vive lidando com tomada de decisão. Então, quanto mais focado naquele momento, com essas ferramentas em mãos, você consegue estar presente e ter a clareza mental para uma tomada de decisão correta naquele momento.
H – Meditação, como uma destas principais ferramentas, está na sua rotina diária?
B- Sim, procuro meditar quando acordo ou antes de dormir, de 8 a 10 minutos. Tem dias que um pouco menos. Também métodos de respiração e a leitura. Você tem ali seus 10, 15 minutos, onde você está realmente focado naquilo que está fazendo. Mas eu não comecei a meditação de cara. Primeiro comecei com a contagem de respiração, que você pode fazer no meio de uma reunião, por exemplo.
Outro exercício que faço muito é a repetição de frases – como a que viralizou com a Rayssa Leal do skate recentemente. Tenho há 12 anos uma frase para quando vou sacar: “Eu sou maior e mais forte que qualquer obstáculo”. É uma coisa que me colocava num momento de presença e de confiança naquilo. São exercícios mentais, é treino. Isso vale para uma reunião importante, para fechar um negócio. Algo que possa realmente te dar confiança naquele momento. Ter essas pequenas frases que te levem àquele estado mental.
H – Essa atenção para o momento presente também faz com que você tenha um olhar melhor para as pessoas ao seu redor e para gerir a equipe?
B – Sem dúvida. É isso. É o lance da presença. É algo que eu mudei muito ao longo do meu tempo, com a minha maturidade, no fator de liderança. Saber quem eu tenho do lado. De chegar e não julgar porque o cara não treina tanto quanto eu, ou talvez não tenha tanta ambição. Mas o que passa na cabeça dele? O que ele está sentindo?
Dentro de um esporte coletivo, tão diverso e tão dependente um do outro, como é o vôlei, mais do que ser o melhor, o mais brilhante, o mais técnico, você precisa conseguir tirar o melhor de cada um que você tem ao lado. E como eu vou fazer isso? Criando conexão. Quando você cria a conexão mais genuína possível é quando você consegue extrair o melhor de cada um.
H – Mas nem sempre é facil…
B – Sempre lembro e brinco de quando fui jogar na Itália. Eu olhei o vestiário, eram sete nacionalidades diferentes, caras vindo de outros países, outras culturas, outros idiomas. Como é que eu vou fazer esse negócio acontecer? Como vou me comunicar, me conectar? E através dos churrascos consegui me conectar com aqueles caras e fazer a gente encontrar o nosso objetivo comum, vencer o campeonato italiano, fazer história naquele time. Aos poucos, a cada dia, consegui motivar.
H – A conexão é que o mantém um time unido e engajado?
B – As conexões são tudo na nossa vida. Você precisa criar um ambiente que seja acolhedor, que seja harmonioso de alguma maneira. Não pode ser um lugar onde você e as pessoas se sintam esgotadas mentalmente. Tem que criar aquele ambiente, seja no trabalho ou em casa, que seja, de alguma maneira, positivo.
H – 2026 está batendo na porta. Como podemos começar o ano com uma mentalidade campeã dentro da equipe?
B- Eu acho que primeiro é criando um ambiente que as pessoas sintam pertencimento. Que as pessoas se sintam parte daquele projeto, da nova jornada que está iniciando. Depois eu acredito que precisa existir a fome, que eu gosto de falar, que é essa paixão por aquilo que nós fazemos.
Então, de alguma maneira é preciso criar isso dentro da equipe. O líder tem esse papel de continuamente motivar as pessoas ali dentro, conseguir tocar, para que estejam no mesmo caminho.
Mudança deu o tom. Adaptabilidade, o caminho. #Inclusão, a ferramenta. E coragem, a força motriz. Ainda não há respostas prontas para resolver todas as questões do momento de transformação e disrupção que vivemos.
A Humanship Conference 2025 foi mais do que um evento — foi um movimento.
Futurista Neil Redding fala à Humanship sobre IA e o RH do futuro: “Acredito que haverá outra letra no lugar do ‘H’, algo diferente, que virá depois do ‘R’”
Nossos tempos pedem disrupção. Sabemos que, para acompanhar as transformações e pensar fora da caixa, muitas vezes é preciso sair da caixa.
“Matar um leão por dia é fácil. Difícil é desviar das antas.” Foi com essa máxima de cafezinho que Alexandre Pellaes arrancou risadas do público em sua participação na Humanship Conference.
Quais outras perguntas sobre Inteligência Artificial devemos nos fazer além de “será que a IA vai roubar nossos empregos”?
Josh Bersin, referência global em RH e futuro do trabalho, analisa como a IA está transformando a gestão nas empresas.
Não sei vocês, mas quando vejo um dado desses, começa a me dar uma coceira se eu não estiver fazendo algo com essa informação”, disse Luciana Carvalho, CHRO da Blip, durante o Humanship Talks.
O mais recente estudo global da Gartner, com 426 CHROs e 105 CEOs, revela que o RH está diante de uma inflexão histórica.