Mudança deu o tom. Adaptabilidade, o caminho. #Inclusão, a ferramenta. E coragem, a força motriz. Ainda não há respostas prontas para resolver todas as questões do momento de transformação e disrupção que vivemos.
No SXSW, a autora best-seller Jennifer B. Wallace propôs um novo olhar sobre conexão, reconhecimento e engajamento
Em tempos de Inteligência Artificial protagonizando quase todas as conversas sobre o futuro do trabalho, fica cada vez mais clara a necessidade de discutir a centralidade humana. Seja no papel que iremos ocupar ou o que temos só nosso, como humanos, a oferecer. E aí entra o destaque da conexão humana como resposta para muitas das perguntas sobre o que queremos construir daqui para frente. Não por acaso o livro Mattering: The Secret to a Life of Deep Connection and Purpose, da jornalista Jennifer Breheny Wallace, lançado em janeiro, está na lista de best-sellers do New York Times.
Também esgotou na livraria oficial do SXSW, onde a jornalista e autora palestrou. No lotado salão principal do maior festival de inovação do mundo, em Austin (Estados Unidos), Jennifer abriu sua fala com uma das maiores preocupações das pessoas atualmente: com tanta evolução tecnológica, ainda seremos necessários? Teremos valor? Continuaremos importantes ou necessários?
Para ela, a grande crise contemporânea talvez não seja tecnológica, mas humana. “As pessoas precisam sentir que são importantes”. Isso vale para as trocas tanto no ambiente pessoal, quanto no profissional.
4 pilares da conexão e do engajamento
Ao longo da conversa, Jennifer apresentou o conceito de mattering como uma necessidade humana fundamental: sentir que somos valorizados e que também agregamos valor à vida de alguém. Segundo ela, esse sentimento se sustenta em quatro pilares, que são a base da conexão social: ser reconhecido, percebido como alguém que faz diferença, ter pessoas que investem em nós e sentir que alguém depende da nossa presença ou existência. – S – Significant (ser reconhecido, ter importância para alguém) – A – Appreciated (ser apreciados por quem você é) – I – Invested in (ter alguém que investe em você, como o exemplo do cornerman, do boxe) – D – Depended on (ser necessário para alguém)
Não por acaso, a pergunta que guiou toda a palestra foi direta: “Você sente que importa?”.
Um dos pontos mais marcantes da fala foi justamente mostrar que essa sensação não nasce, necessariamente, dos grandes marcos da vida ou de conquistas grandiosas. Ela aparece nos pequenos gestos cotidianos: um colega que lembra do seu chocolate preferido, alguém que quer saber como você realmente está ou um líder que conecta o trabalho realizado ao impacto gerado.
Ambiente de trabalho como agente de mattering
Para Jennifer as organizações têm potencial para operar como agentes de mattering, mas muitas vezes geram a sensação oposta. Ela citou uma pesquisa da Gallup em que 70% das pessoas se dizem desengajadas no trabalho. Já nas próprias pesquisas da jornalista, o que ela percebeu foi:
“As pessoas não se desengajam porque são preguiçosas. Elas se desengajam porque não acreditam que aquilo que fazem faz diferença.”
E a partir disso, começam a se reter, a se retrair, como uma forma de autoproteção, uma estratégia de sobrevivência emocional. Não entregando o seu melhor. “Dói menos reduzir o próprio esforço do que continuar dedicando energia em um lugar que faz você se sentir invisível”, afirmou.
Por outro lado, segundo Jennifer, profissionais que se sentem reconhecidos têm 48% menos chance de procurar outro emprego e podem ser até cinco vezes mais engajados. Porque o engajamento começa exatamente onde a invisibilidade termina.
O risco da performance perfeita
Jennifer também chamou atenção para um comportamento cada vez mais presente nas relações e no trabalho: a tentativa constante de performar perfeição. Para ela, enfrentamos um grande desafio: no mundo moderno, nossa cultura torna mais difícil do que nunca sermos quem realmente somos. Pesquisadores chamam isso de “perfeccionismo socialmente prescrito”, a crença crescente de que a sociedade espera que sejamos impecáveis.
Décadas atrás, segundo Jennifer, o teólogo Henri Nouwen já alertava sobre as crenças que sustentam essa pressão com as “três grandes mentiras” que moldam nossa identidade contemporânea: “eu sou o que tenho”, “eu sou o que faço” e “eu sou o que os outros dizem sobre mim”.
Segundo ela, relações verdadeiras não se constroem na perfeição, mas no que chamou de beautiful mess, a beleza das imperfeições, vulnerabilidades e autenticidade que nos tornam humanos e conectáveis. Ou, como Heidi Brooks, também palestrante do SXSW e da Humanship Conference, afirma, relações verdadeiras se constroem a partir do que ocorre no espaço entre nós.
No fim, talvez a sensação mais forte da palestra tenha sido perceber que Jennifer B. Wallace organizou em palavras algo que, no fundo, já sabemos, ou deveríamos saber. Em tempos de inteligência artificial, hiperconexão e relações aceleradas, o verdadeiro diferencial humano talvez esteja justamente na capacidade de fazer o outro se sentir visto, valorizado e necessário. Porque mattering não é discurso. É experiência. É presença. É vínculo.
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