Humanship Experience: o RH na era dos paradoxos e a conexão como estratégia de futuro

Conexão e isolamento. Empoderamento e vulnerabilidade. Risco e Oportunidade. Inteligência Artificial e Humanidade. RH Humano e RH Estratégico para o Negócio. Quantas destas questões vieram à tona ao longo de 2025? E foi justamente para explorar esses paradoxos e outros desafios das lideranças de RH que nos reunimos no Humanship Experience.

O encontro, com mais de 100 lideranças de RH em dois dias de imersão num resort no interior de São Paulo, foi um convite para mergulhar nos paradoxos que nos cercam. Uma proposta do futurista Tim Lucas, também antropólogo e head da Hyper Island.

Os paradoxos nos cercam e, é claro, impactam a nossa forma de liderar e de existir num mundo de rápidas transformações. As demandas de uma boa liderança estão mudando e mudando rápido. Adaptabilidade chega como skill dominante. Atenção à saúde mental e resiliência também entram no topo da lista.

O desafio é humanizar para criar conexões cada vez mais fortes na equipe, direcionadas para o objetivo em comum. Ter a mentalidade de um capitão de time campeão olímpico, como a de Bruno Rezende, o Bruninho do vôlei. “Não importa o quão talentoso você é, mas o quanto você consegue extrair o melhor de quem está ao seu lado. Esse talento é mais raro do que o talento técnico”, afirmou o jogador.

Para isso é preciso presença, conexão e boas relações, necessidade vitais para a nossa saúde social. Mas mesmo num mundo hiperconectado nunca nos sentimos tão sozinhos e desconectados um dos outros, destacou Renata Rivetti, especialista na ciência da felicidade e autora do livro O poder do bem-estar: um guia para redesenhar o futuro do trabalho.

Na avalanche de reuniões, retrabalhos e excesso de informação, Renata faz um alerta: “Estamos sobrevivendo às notificações diárias, sempre respondendo aos outros e nunca focando no que realmente importa. Pouca presença, pouco produtivos e pouco saudáveis.”

A boa notícia é que dá para virar o jogo. Colocando foco nas relações, o maior protetor da nossa saúde mental. “Não há felicidade onde não há humanidade”, defende. Ao longo dos dois dias da Humanship Experience pudemos nos aproximar do que nos faz mais humanos: as relações e a conexão. Aqui mostramos alguns dos muitos pontos altos deste encontro. Ao longo das próximas semanas compartilharemos mais.

Sentido e pertencimento

Para Renata Rivetti chegou a hora de questionar o modelo de trabalho. No mundo do excesso de informação e do mito da multitarefa em que nunca parar é sinônimo de produtividade, a busca por sentido, impacto e a sensação de fazer algo positivo prevalece. Apenas sobreviver não pode ser o suficiente. “A gente precisa ter um sentido. Não precisa ser um propósito grandioso, nobre, raro e extraordinário. Mas precisa de algo que tenha impacto”, afirma.

A sensação de impacto vem junto do pertencimento, de fazer parte do coletivo, de algo maior. Por isso é preciso investir nas pessoas, no bem-estar. Não é levar para Disney ou oferecer um ambiente bonito. É focar nas relações, no líder que acolhe, na colaboração do time.

“A empresa não vai fazer ninguém feliz, mas também não pode ser mais uma ofensora da saúde mental. A saúde mental impacta em tudo das nossas vidas, nas nossas relações, na nossa forma de reagir, na nossa produtividade, no nosso engajamento. E o líder faz parte dessa construção, meus colegas fazem parte dessa construção.”

RH como desenvolvedor (de pessoas e de tecnologia)

A Inteligência Artificial Generativa, com seus ganhos e riscos, dominou a agenda de 2025, e naturalmente marcou presença no Humanship Experience. Mas desta vez com o RH assumindo o papel de desenvolvedor de tecnologia. Com a atividade, as lideranças puderam aprender a pilotar a IA de forma estratégica e focar a atenção no resultado.

“A IA democratiza o como fazer, mas ela devolve para a gente a responsabilidade soberana do o que fazer”, afirmou Vinicius Lana, fundador da AI Coders Academy e parceiro da Prosper Digital Skills. Ele facilitou o workshop de Vibe Coding, uma nova forma de programar usando a IA para criar o código.

  • Vibe coding

Vinicius explica que com o vibe coding aquilo que antes era delegado para um time de tecnologia, agora é direcionado para uma IA, em linguagem natural, como uma conversa. “Na era da IA a principal skill é delegar”, reforçou Vinicius. Delegar com contexto, clareza e foco no que realmente importa. Não por acaso, algumas das principais competências que moldam uma boa liderança.

Em meio ao workshop mão na massa, onde puderam escolher desenvolver uma das três plataformas sugeridas, as lideranças de RH se viram ao mesmo tempo desafiadas e empoderadas com a nova possibilidade. Com o exercício prático, viram que mais do que tecnologia, o que está em jogo é a capacidade de se abrir ao novo contexto e assumir seu papel estratégico e protagonismo na transformação.

2026: back to basics, mas com novas lentes

IA para além da infraestrutura, agentização e desenvolvimento de novas habilidades, NR1 batendo na porta, engajamento em baixa, crise climática, RH como parceiro estratégico e liderança como ponto de atenção. A lista do que vem por aí não é pouca coisa.

O painel O que esperar de 2026, com Isadora Gabriel, CHRO da Flash, Soraya Bahde Diretora de Cultura e Talentos no Bradesco, e Vanessa Togniolli, CHRO da NUMEN, mediado por Artur Assumpção, diretor no Indeed, revelou que, apesar de um futuro repleto de avanços tecnológicos, especialmente em IA, a resposta das organizações passa por voltar ao essencial. Voltar o olhar para o humano, mas com novas lentes e apostando no poder de influência.

  • Mudança de mentalidade

Para Soraya, o futuro já está espalhado no presente e por isso “não dá mais para apresentar as mesmas soluções e oportunidades para um público que não é mais o mesmo”.

A importância da mudança de mentalidade também foi destacada por Isadora. Para ela, o RH deve adotar um novo mindset digital, redesenhando as jornadas dos colaboradores antes de escolher tecnologias. “Se eu não repensar exatamente como eu quero que essa jornada nova, nesse novo cenário, funcione, eu não vou acertar. É preciso repensar o que a gente quer para esse colaborador vivendo o futuro do trabalho”, disse a CHRO da Flash.

  • Influenciadores internos

O engajamento não deve depender apenas da liderança; influenciadores internos podem ser usados para disseminar a cultura e a narrativa da mudança, servindo até como um “cheque de coerência”. É, segundo Soraya, o que tem dado bons resultados neste momento de transformação do Bradesco.

  • Equipe forte para um RH estratégico

De acordo com Vanessa, para que o RH assuma esse papel estratégico e consiga, de fato, pensar fora da caixa, impactar e influenciar o CEO, é crucial poder contar com uma equipe operacional forte e confiável dando suporte no dia a dia. Com isso a liderança de RH tem mais tempo para atuar estrategicamente, aprender sobre o negócio e fazer a ponte entre a operação e a alta gestão.

  • Liderança e as pessoas no centro

Sempre importante lembrar que os líderes são a grande ponte do RH dentro das equipes. E eles vivem um dos momentos mais críticos dentro das organizações. “A liderança está sendo demandada a entregar resultado, mudar a equipe, mudar o desenho organizacional, contratar novos talentos que tenham IA na veia… É uma camada da companhia muito desafiada”, destacou Isadora. Cabe ao RH  resgatar esses líderes, colocando mais ferramentas de gestão à disposição e orientando a conexão entre a cultura e a estratégia.

Para Vanessa, a construção das relações deve iniciar com o RH: “Na minha cabeça tem um back to basics extremamente necessário. Comece a demonstrar um pouquinho de interesse pelas pessoas. Todo mundo é ser humano, e a gente precisa resgatar isso. Porque no dia a dia, o que eu preciso ter são habilidades humanas para poder movimentar na direção que precisa.”

Desafios emergentes

Já sabemos, o momento é de transformação na área de gestão de pessoas. O papel do RH, cada vez mais estratégico, entra como um grande orquestrador de pessoas, tecnologia e processos. Alessandra Ginante Yockelson, Marcela Ziliotto, CHRO da Pipo Saúde, e Flavia Pontes, CHRO da Petz, dividiram o painel Desafios Emergentes em Pessoas, mediado por Filipe Ducas, co-fundador da Comp.

“A gente vai ter que mudar o nome da área porque não vai ser só sobre humanos os recursos. Tem dinheiro para uma nova iniciativa? Vamos precisar pensar o processo dessa nova iniciativa, imaginar o que será feito com tecnologia, o que será feito com pessoas”, sugeriu Alessandra.

  • Menos sobre força de trabalho, mais sobre o trabalho em si

Marcela contou que esteve no simpósio de RH da Gartner, realizado em outubro nos EUA, e uma das frases de impacto que ouviu por lá é que o RH não vai mais “só” cuidar da força de trabalho, mas do trabalho em si.

Outro insight compartilhado por ela é que a estrutura organizacional também será transformada por conta da IA. Em vez de pirâmide, explicou Marcela, estamos caminhando para um modelo de diamante, com foco nos colaboradores mais sêniores, como grande força de trabalho desse novo momento, e menos camadas de lideranças intermediárias.

  • Gestão de produtividade e de efetividade

Para Flavia, questões relacionadas à produtividade estão entre os principais desafios emergentes. Com a IA é preciso repensar cargos, camadas e realocação para um melhor aproveitamento.

Neste quesito os dados são os grandes parceiros do RH. Alessandra destacou que não faltam informações para medir o impacto da IA nas diferentes funções. Existem dados que orientam sobre o que a tecnologia pode resolver, onde é possível ganhar eficiência e até cargos humanos que precisarão ser criados.

  • “Sevirômetro” e as habilidades em alta

As habilidades técnicas dão espaço para skills como adaptabilidade, boa comunicação e análise crítica. “Os líderes atuais não foram preparados para esse olhar mais crítico, diferente da nova geração”, afirmou Flavia. Na petz entrou como competência nova na academia de liderança.

A adaptabilidade chega como a capacidade de desaprender e aprender continuamente para lidar com a velocidade das transformações. Marcela trouxe o dado de que as pessoas gastam três horas por dia de energia cognitiva para lidar com as novas e rápidas mudanças. Aí entra a relevância da boa comunicação da liderança: “É a comunicação da liderança que vai dar a conexão do que está acontecendo, dar conforto e apontar caminhos”.

Já Alessandra destaca a importância do desenvolvimento e estímulo ao “sevirômetro”. Com o papel da liderança mudando e o trabalho direcionado para times cada vez mais qualificados e autônomos, as pessoas precisam aprender a se virar melhor. “Eu falo, não espere tanto do chefe, o chefe é imperfeito”.

  • RH como conselheiro do CEO: conheça seus dados

Dados é a palavra da vez. Informação não falta. Maneiras acessá-las também. Saber diagnosticar é o primeiro passo, por isso, reforça Alessandra, o RH precisa entender de tecnologia, do negócio e dos dados. Para isso, ela inclusive indicou o livro Poder e Predição: a economia disruptiva da IA.

“A gente está vivendo com essas diferentes tecnologias e o RH é protagonista. Se a gente não fizer, ninguém vai fazer. Conheça o seu negócio, quais são os drivers. Pense sem restrição”, reforçou Alessandra.

O olhar para o problema com a mentalidade de inovação também foi destacado por Marcela: “Precisamos chegar no problema fundamental que o negócio quer resolver e pensar na solução. Isso é menos sobre estrutura digital e mais sobre inovação.”

Para além do sobrenome corporativo

“O nosso cargo no LinkeDisney diz o que a gente faz, mas não conta quem a gente é”, provocou Carol Nucci, mãe da Olívia e de duas cachorras, filha de dois pais e de duas mães, casada com o Lu, nerd e também cofundadora e CMO da Conectas. De cara, ela destacou: o que realmente faz com que as pessoas se conectem conosco e engajem é aquilo que somos. A conexão é o ponto de partida para tudo que transforma, das relações à inovação”.

E explicou que, para ela, a definição mais simples de inovação é a mudança que gera valor. Valor para alguém. Por isso, a base da inovação é a conexão. Para Carol, o caminho é a empatia, é conhecer as pessoas. É somar as diferentes perspectivas dos envolvidos.

Ao longo da vida acumulamos sobrenomes corporativos e somos avaliados pelos cargos que ocupamos e a velocidade em que percorremos esta jornada profissional. Tudo isso tem o seu valor, mas não nos resume ou define, afirmou Carol. É com que acontece nos bastidores que as pessoas se conectam.

E no momento descontraído de dinâmica, Carol facilitou esta troca. A proposta, conhecer as pessoas a partir das histórias que respondem às seguintes perguntas:

  • Quem eu sou?
  • O que amo?
  • O que é meu (hábitos, hobbies, o que dizem sobre mim)?
  • O que eu ofereço?
  • O que mais?

Um roadmap para puxar assunto e se conectar com os outros. Um convite para pensar mais sobre si mesmo. Quem somos, do que gostamos… Afinal, o que está atrás do crachá constrói relações. Constrói conexão. Constrói confiança.

Para paradoxos, conexão

Os paradoxos que abriram o texto nos cercam, mas não nos limitam. Pelo contrário, eles nos expandem e nos deixam mais prontos para navegar os futuros. Não, não vamos escapar das dicotomias, das transformações, da disrupção, das tensões. Em tempos de paradoxos o caminho (e a saída) é a conexão. E é, segundo Tim Lucas, papel das lideranças, iluminar esse caminho.

“Tem que ser especialista, mas também facilitador. A adaptabilidade cognitiva talvez seja uma das maiores necessidades dos líderes do futuro. Abraçar ideias contraditórias pode, na verdade, ser o segredo da criatividade e da liderança”, destacou o futurista.

O Humanship Experience nos mostrou a potência da conexão e a força das relações humanas. Foram dias de trocas de insights, experiências e inspiração. Seguimos nessa construção coletiva. “Encerramos o Humanship Experience celebrando os feedbacks positivos. Felizes com o que ouvimos sobre a qualidade da curadoria, a relevância dos speakers e das conexões aqui geradas. Estamos animados, já planejando a edição de 2026”, afirmou Luiz Drouet, fundador de Humanship.

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