Esther Perel no SP2B: "Inteligência relacional é infraestrutura operacional"

Foto: Divulgação SP2B

Na abertura do maior festival de inovação do Brasil, a psicoterapeuta e autora best-seller defendeu que relações, não tecnologia, são o que determina a velocidade das organizações

Queremos certeza. Clareza. Respostas que nos digam para onde ir, o que escolher, como escrever, o que fazer. Medimos o sono, os passos, a produtividade, o desempenho. Rastreamos dados, comportamentos, resultados. E, quanto mais a tecnologia nos oferece caminhos rápidos, precisos e sem atrito, mais difícil parece se tornar conviver com aquilo que não sabemos.

Mas relações humanas não são feitas de respostas exatas. São construídas em meio a ambiguidades, contradições, conflitos e camadas. Dependem da nossa capacidade de conviver com aquilo que não controlamos, inclusive o outro.

Foram justamente os desafios das relações humanas em meio a tantas transformações que Esther Perel colocou no centro da abertura da primeira edição do SP2B, na noite deste domingo (9), no Parque Ibirapuera, em São Paulo. Conhecida mundialmente por seu trabalho sobre relacionamentos, a psicoterapeuta belga e autora best-seller levou para um festival de inovação uma provocação especialmente relevante em tempos de inteligência artificial: o que acontece com a nossa capacidade de nos relacionar à medida que a tecnologia ocupa cada vez mais espaço em nossas vidas?

Ao longo da conversa conduzida pela atriz Alice Braga, Esther falou sobre confiança, conflito, criatividade, liderança, solidão e conexão. “A criatividade acontece na fronteira entre o conhecido e o desconhecido”, afirmou. É nesse espaço que também exercitamos imaginação, intuição e confiança. Afinal, “se você precisa saber, você não está confiando”.

E aí está um dos paradoxos mais interessantes deste momento: quanto mais tentamos eliminar a incerteza, mais podemos nos afastar justamente das capacidades humanas de que precisamos para atravessá-la.

Criatividade. Intuição. Confiança. Relações.

Durante pouco mais de uma hora de conversa, Esther mostrou como essas dimensões se conectam e por que, em meio à aceleração tecnológica, olhar para a qualidade das nossas relações pode ser tão importante quanto discutir a própria tecnologia. “A inteligência relacional é infraestrutura operacional. A qualidade das relações determinam a velocidade, a execução.”

 

Uma escolha menos óbvia

A escolha de Esther Perel para abrir um festival de inovação e empreendedorismo pode parecer pouco óbvia. Mas foi intencional.

O SP2B nasce em São Paulo inspirado pela experiência do SXSW – considerado o maior festival de inovação, tecnologia e cultura do mundo –, mas com a proposta de construir uma identidade própria. Em sua primeira edição, serão mais de 2 mil palestrantes, 750 sessões e 20 palcos ao longo de oito dias, em uma programação que cruza tecnologia, negócios, cultura, comportamento e sociedade.

“Acima de tudo, é um projeto e um movimento que conecta pessoas”, afirmou Rafael Lazarini ini, idealizador do festival. “Que um encontro provoque outro encontro, que uma ideia leve a outra ideia, que as conexões feitas aqui possibilitem coisas que a gente nem é capaz de imaginar neste momento.”

A conexão com o SXSW passa também por Hugh Forrest, que fez parte da organização do festival de Austin por 37 anos e hoje participa da construção do SP2B. “A importância de um evento como o SP2B é reunir as pessoas, frente a frente, na vida real, em tempo real, para que possamos crescer de forma genuína e humana.”

No lançamento do SP2B, há exatamente um ano, Yuval Noah Harari esteve no mesmo palco falando sobre IA e sobre os riscos de perdermos a confiança nas instituições, nas informações e, principalmente, uns nos outros. Uma provocação que permaneceu como fio condutor na construção desta edição.

Foi daí que Esther surgiu como escolha para a abertura. Como resumiu Lazarini: “Se inovação é sobre imaginar o futuro, precisamos falar sobre aquilo que continuará sendo essencialmente humano nesse futuro: nossas relações, nossa capacidade de confiar, de ouvir, de nos conectar.”

 

A tecnologia elimina o atrito. Mas queremos uma vida sem atrito?

Uma das primeiras provocações de Esther foi sobre o tipo de experiência que a tecnologia vem nos ensinando a esperar. Respostas claras. Experiências sem fricção. Recomendações precisas sobre onde ir, o que comer, o que assistir. Cada vez menos espaço para experimentar, errar, corrigir, descobrir.

“Queremos coisas polidas, sem atrito, sem ambiguidade, respostas claras.”

O contraponto está justamente naquilo que caracteriza a experiência humana: incerteza, contradição, tentativa, erro e interação.

Para Esther, criatividade acontece exatamente nessa fronteira entre o conhecido e o desconhecido. Não é possível saber previamente qual será o resultado de uma descoberta. É preciso algum grau de segurança para arriscar, mas também disposição para entrar em territórios nos quais ainda não existem respostas prontas.

“Criatividade é um salto no qual você se envolve com confiança com o desconhecido, com a descoberta, com a exploração.”

Em um momento de enorme ansiedade sobre o impacto da IA no trabalho, aprender a lidar com a incerteza deixa, portanto, de ser apenas uma questão emocional. Torna-se também uma condição para imaginar e construir o novo.

 

Da inteligência artificial à “intimidade artificial”

Ao falar de IA, Esther deslocou a conversa daquilo que a tecnologia consegue fazer para o tipo de relação que estamos começando a estabelecer com ela. Chamou atenção para o crescimento do que denomina “intimidade artificial”: máquinas capazes de simular empatia, compreensão, aconselhamento e até sedução.

Mas há uma diferença fundamental. Uma máquina pode responder, aconselhar, demonstrar aparente empatia. O que ela não reproduz é a reciprocidade que existe em uma relação entre duas pessoas.

E é daí que nasce um dos alertas mais fortes de Esther: “O risco não é perdermos a conexão humana. O risco é esquecermos como é uma conexão humana genuína.”

Para ela, somos seres sociais e corporificados: sentimos, observamos, escutamos, tocamos. Em uma vida cada vez mais mediada por telas e tecnologia, preservar essa experiência de estar verdadeiramente com outras pessoas se torna ainda mais importante. “Estar junto sempre foi um mecanismo essencial de sobrevivência. Não é um luxo. É um bem público.”

 

Confiança: posso contar com você?

Se a abertura da conversa passou pela confiança diante do desconhecido, Esther levou o conceito adiante ao falar sobre o que sustenta a confiança entre pessoas.

Mais do que um sentimento, ela envolve ética, responsabilidade e a percepção de que o outro não colocará seus próprios interesses sempre em primeiro lugar. “Você me apoia? Posso contar com você? Se eu cometer um erro, você não vai usá-lo contra mim?”

São perguntas simples, mas que ajudam a traduzir o que confiança significa na prática, inclusive dentro das organizações. Para Esther, sabemos quando ela existe e, principalmente, sentimos na pele quando é quebrada. E reconstruí-la começa justamente pelo reconhecimento de que essa ruptura aconteceu.

 

Inteligência relacional não é uma soft skill

Autenticidade, pertencimento, confiança, vulnerabilidade, segurança psicológica. Para Esther, a presença cada vez maior desse vocabulário no ambiente corporativo revela uma mudança importante: as relações deixaram de ocupar um lugar periférico nas discussões sobre trabalho.

Durante muito tempo, habilidades relacionais foram tratadas como soft skills. Mas essa leitura já não dá conta da realidade das organizações. “A inteligência relacional é uma infraestrutura operacional.”

Na prática, a qualidade das relações interfere diretamente na capacidade de execução. “Quando a inteligência relacional é boa, o trabalho parece leve, energético e rápido. Quando é ruim, parece pesado, defensivo e lento.”

Problemas de performance, segundo Esther, muitas vezes também são problemas de relacionamento: conversas que não acontecem, falta de clareza, conflitos evitados, pessoas que deveriam falar umas com as outras, mas deixam de fazê-lo.

Relações, portanto, não pertencem apenas ao território da cultura. Elas interferem em produtividade, inovação, velocidade e resultados.

 

O conflito não é inimigo da conexão

Essa inteligência relacional também passa pela capacidade de lidar com divergências. “O conflito não é inimigo da conexão. Evitá-lo é destrutivo.” Para Esther, equipes saudáveis não são aquelas que não entram em conflito. São aquelas capazes de atravessar rupturas e fazer reparos: “Elas os reparam e aprendem a conviver com eles.”

A diferença está em conseguir discordar sem transformar a divergência em desrespeito ou desprezo pelo outro. E, em vez de perguntar apenas sobre o que as pessoas estão brigando, Esther propõe uma mudança de perspectiva: perguntar pelo que elas estão brigando.

Por trás de grande parte dos conflitos, segundo ela, aparecem três questões: poder e controle; cuidado e proximidade; respeito e reconhecimento. Quem decide? Você me apoia? Eu importo? São perguntas aparentemente simples, mas que atravessam relações, equipes e organizações.

E há uma camada adicional: muitos dilemas relacionais não têm uma solução definitiva. “A maioria dos dilemas relacionais não são problemas que você resolve. São paradoxos que você administra.”

Isso exige tolerância à ambiguidade e capacidade de sustentar ideias contraditórias ao mesmo tempo, justamente o oposto das respostas limpas e inequívocas às quais estamos cada vez mais acostumados.

 

Liderar quando ninguém tem todas as respostas

A incerteza reapareceu quando a conversa chegou à liderança. Esther questionou a ideia de resiliência como uma capacidade exclusivamente individual, a força de alguém para suportar adversidades e “voltar ao normal”. Para ela, essa interpretação é consequência de uma sociedade excessivamente individualista.

“Nunca sobrevivemos sozinhos. Certamente não sobrevivemos sozinhos a crises, grandes mudanças sociais ou revoluções tecnológicas.” É daí que surge a ideia de resiliência coletiva.

Em períodos de transformação profunda, líderes também não sabem exatamente o que acontecerá. Não podem simplesmente apresentar um destino, um plano e todas as respostas. Para Esther, o papel da liderança não é eliminar a incerteza, mas criar condições para que as pessoas consigam atravessá-la juntas.

“O papel do líder é ativar essa resiliência coletiva: oferecer a estrutura, a clareza e a segurança necessárias para que as pessoas possam atravessar a dificuldade sem se fragmentar.”

 

O currículo que não colocamos no LinkedIn

Para Esther, todos temos dois currículos. O primeiro é o oficial. Onde estudamos, onde trabalhamos, quais cargos ocupamos e quais resultados alcançamos.

Mas existe o não oficial, normalmente invisível e tão (ou mais) importante quanto.

Ele inclui aquilo que superamos, as relações que nos formaram, nossa capacidade de colaborar, pedir ajuda, depender dos outros e permitir que os outros dependam de nós. Em outras palavras, ele não descreve apenas o que sabemos fazer, mas como é trabalhar conosco.

Para Esther, esse “currículo não oficial” deveria fazer parte de conversas antes de contratar alguém, escolher um sócio ou formar uma parceria. Em um mercado cada vez mais interessado em competências técnicas e na capacidade de trabalhar com novas tecnologias, talvez parte das competências mais importantes para o futuro esteja, mais uma vez, justamente naquilo que ainda temos dificuldade de medir.

 

A solidão moderna

Estar conectado não significa necessariamente estar em relação. Para Esther, a solidão contemporânea não nasce apenas da ausência de pessoas ao nosso redor, mas de algo mais sutil nas nossas interações: “A solidão moderna não é falta de contato social. É perda de profundidade.”

Podemos passar o dia trocando mensagens, participando de reuniões, respondendo a notificações e interagindo com dezenas de pessoas, a partir de diferentes telas, e, ainda assim, experimentar pouco da presença que transforma contato em conexão.

Esther ilustrou a ideia com uma cena cada vez mais familiar: duas pessoas sentadas lado a lado no sofá, cada uma concentrada em sua própria tela. E provocou: depois nos perguntamos por que estamos vivendo uma “recessão sexual”.

Mas a questão vai além da intimidade do casal. Em algum momento, uma dessas pessoas tenta compartilhar algo importante. A outra, ainda dividindo a atenção com o celular, responde apenas “ãhã, ãhã”. “Esse pequeno atraso digital dá a sensação de que você está ali, mas não está presente. É aí que a solidão moderna se instala.”

A autora destaca que isso tanto em casa quanto no trabalho. Podemos estar na mesma reunião, na mesma sala ou diante da mesma pessoa e, ainda assim, não estar verdadeiramente disponíveis para a troca.

E essa perda de profundidade tem consequências. Para Esther, quando perdemos presença, perdemos também parte daquilo que nos faz sentir verdadeiramente vivos.

 

O que nos faz sentir vivos?

Entre tantas discussões sobre produtividade, performance, tecnologia e futuro, Esther trouxe ainda uma palavra difícil de traduzir perfeitamente para o português: aliveness.

Mais do que estar vivo, trata-se da sensação de vitalidade, aquilo que nos faz sentir realmente vivos. “Aliveness tem a ver com curiosidade, imaginação, novidade, exploração. É o lado fortuito, espontâneo e improvisado da nossa vida.”

Talvez tenha sido uma maneira especialmente potente de encerrar uma conversa pensando no futuro. Porque aliveness nos devolve ao incerto, justamente àquilo que não pode ser inteiramente previsto, medido ou programado. À curiosidade, à espontaneidade, à presença. E, sobretudo, às relações.

Porque não apenas vivemos uns com os outros: influenciamos uns aos outros. “Se eu me sento ao seu lado, a forma como você fala comigo influencia a forma como eu falo com você. A forma como você me olha muda a forma como eu olho para você”, explica a psicoterapeuta. “Estamos cocriando uns aos outros. Minha máquina não cocria comigo.”

Ao abrir o SP2B, um festival que se propõe a discutir inovação e a imaginar o futuro, Esther nos lembrou que esse futuro não será construído apenas pela tecnologia. Ao cocriarmos uns aos outros, estamos também cocriando o futuro.

Nos próximos dias, a Humanship segue no SP2B liderando um grupo de 35 executivos de RH, acompanhando de perto, sob a curadoria da Oddly Experience, as principais conversas e os sinais que podem impactar o futuro do trabalho, da liderança e das organizações. Faremos essa cobertura em tempo real por aqui. Acompanhe a Humanship ao longo da semana.

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