Mudança deu o tom. Adaptabilidade, o caminho. #Inclusão, a ferramenta. E coragem, a força motriz. Ainda não há respostas prontas para resolver todas as questões do momento de transformação e disrupção que vivemos.
No primeiro encontro do grupo de estudos, Neil Redding apresentou o Clock Drift e por que a tecnologia já transforma executores em decisores.
No início de julho, um grupo de CHROs e diretores de RH de algumas das principais organizações do Brasil se reuniu online para a abertura do Future of Work Lab, iniciativa da Humanship para refletir, trocar experiências e construir repertório sobre as transformações que estão redefinindo o trabalho. O convidado era Neil Redding , futurista americano que se apresenta como The Near Futurist, não alguém que prevê o futuro distante, mas alguém que ajuda líderes a enxergar com clareza o que já está mudando agora.
Não por acaso, a Inteligência Artificial abriu a série de encontros. Mas a conversa esteve longe de girar em torno de ferramentas ou das últimas novidades tecnológicas. O foco foi outro: entender o que começa a acontecer quando a IA altera a forma como o trabalho é realizado antes que as organizações consigam acompanhar essa mudança.
Durante duas horas, a discussão alternou provocações e insights de Neil, relatos dos participantes e situações vividas dentro das próprias empresas. Mais do que uma palestra, foi uma conversa em que diferentes executivos passaram a reconhecer, nos exemplos apresentados, desafios que já estão vivendo.
Neil organizou a conversa a partir de dois conceitos que ajudam a explicar uma transformação que muitas organizações já começaram a viver, mas ainda têm dificuldade de nomear: Clock Drift e Doers to Deciders. Nos reconhecemos neles mais do que podemos imaginar.
Logo de cara, Neil abriu com uma provocação direta: o problema das organizações hoje não é a estratégia. É a velocidade, o tempo de ação.
“Dentro da maioria das empresas, o trabalho ainda se move através de especificações, revisões e comitês. Mas no laptop de cada funcionário, o trabalho habilitado por IA já está se movendo em um tempo diferente”, afirmou Neil. E, em seguida, destacou: “Seus melhores profissionais já conseguem construir uma ferramenta funcional em uma tarde, enquanto pode levar semanas apenas para aprovar a ideia dessa ferramenta“.
Esse gap tem um nome, cunhado pelo próprio futurista: Clock Drift (como um descompasso do relógio). A IA já consegue executar mais rápido do que as organizações conseguem decidir. Mas, para Neil, esse não é um problema tecnológico. É um problema organizacional.
O conceito não é abstrato. Ele trouxe o exemplo de dois jornalistas da CNBC, sem formação técnica, que decidiram testar se conseguiam recriar o Monday.com usando IA. Uma hora depois, tinham algo funcional por quinze dólares de processamento. Semanas depois, segundo Neil, o setor de software caiu 30% na bolsa.
Outro exemplo que ficou ainda mais próximo do que ocorre hoje nas organizações foi o de Mark Pike, advogado da Anthropic. Sem nenhuma formação em engenharia, Pike construiu em uma tarde, usando linguagem comum com a IA, um plugin de revisão jurídica que reduziu o tempo de resposta de dias para horas. Instruções em texto. Arquivos de configuração. Feito por um advogado.
“Pike está sancionado, ele tem a aprovação interna. Sua liderança sabe, seu time está alinhado. Mas eu quero que você imagine a versão não sancionada, não aprovada. Aquela que você provavelmente ainda não sabe que existe dentro da sua organização.” Neil também nomeou esse fenômeno: shadow execution. Ou, em outras palavras, uma espécie de execução paralela que surge quando profissionais começam a redesenhar o próprio trabalho antes que a organização consiga reconhecer, formalizar ou governar essa mudança. Não se trata, necessariamente, de pessoas escondendo o que fazem. Muitas vezes as próprias organizações ainda não conseguem acompanhar a velocidade com que o trabalho está mudando.
Estudos recentes mostram que cerca de 50% dos funcionários admitem usar ferramentas de IA não aprovadas no ambiente de trabalho. Uma executiva presente descreveu o momento exato em que sua equipe de segurança da informação percebeu que pessoas estavam usando Claude, Gemini e GPT e simplesmente bloqueou tudo. Outra, de uma empresa do setor financeiro, relatou que a tensão entre mover rápido e cumprir com as regulações é diária e o Clock Drift aparece em cada reunião do comitê executivo.
Neil respondeu sem condescendência: “Essa tensão é algo que todos nós sentimos e é por isso que o conceito de Clock Drift ressoa tanto.”
A conversa chegou a um ponto mais profundo quando alguém perguntou: é possível criar uma zona legítima de autonomia para os times enquanto a governança corporativa ainda opera no ritmo antigo? Neil foi direto:
“A governança precisa mudar. Precisa ser mais uma colaboração entre humanos e IA.”
Segundo Neil, isso exige que pessoas e IA passem a operar sobre o mesmo contexto. Valores, princípios, restrições regulatórias, políticas internas e critérios de decisão precisam deixar de existir apenas na cabeça das lideranças e passar a compor aquilo que orienta também os agentes de IA.
Depois de anos organizando dados, talvez as empresas precisem começar a organizar contexto. “As empresas que resolverem isso vão superar as que não conseguirem.”
A segunda parte do encontro foi mais a fundo. Se Clock Drift define o problema, Doers to Deciders (de executores para decisores) propõe a resposta e suas implicações para o RH são diretas.
A tese central é que, à medida que a IA assume a execução, o trabalho humano se desloca para a tomada de decisão. Não gradualmente. Estruturalmente.
Neil lembrou que essa é uma ruptura sem precedentes na história do trabalho. “Se voltarmos no tempo, desde milhares de anos, o trabalho sempre foi fundamentalmente liderado por humanos.” Durante toda a nossa história, explicou, “os humanos sempre foram os pensadores, os conhecedores, os decisores, os executores, os revisores e os editores. Sempre usamos ferramentas.”
Da agricultura à Revolução Industrial e ao escritório moderno, a lógica permaneceu a mesma: a tecnologia ampliava a capacidade humana, mas era o ser humano quem pensava, decidia e executava. Em outras palavras, “a qualidade das decisões e a velocidade de execução do nosso trabalho sempre foram determinadas pela capacidade humana.”
Isso está mudando. E o que mudou especificamente foi o raciocínio, a lógica central: no momento em que a IA passou a raciocinar, e não apenas responder a comandos, ela deixou de ser uma ferramenta e se tornou um participante. E participantes co-criam resultados. Ferramentas, não.
A ruptura, segundo Neil, não acontece porque a IA ficou melhor em executar tarefas. Ela acontece porque a IA passou a raciocinar.
“No momento em que a IA passa a raciocinar, e não apenas responder a comandos, ela deixa de ser uma ferramenta e se torna uma participante.”
Ferramentas executam tarefas. Participantes cocriam resultados.
Neil citou o artigo de Matt Schumer que viralizou com mais de cem milhões de visualizações em que dizia: “Eu não sou mais necessário para o trabalho técnico real do meu trabalho. Eu descrevo o que quero construído em inglês simples e simplesmente aparece. Não um rascunho. Uma coisa acabada.”
Na contramão disso, o dado que retrata nossos tempos (e descompasso no relógio): 84% das empresas ainda não redesenharam um único cargo diante dessas novas capacidades.
Segundo Neil, há duas formas de interpretar essa estatística. Uma é que estamos em um momento muito inicial dessa transformação. A maioria das organizações ainda não redesenhou cargos e, de certa forma, estamos todos aprendendo juntos.
A outra é mais provocativa: “Os que estão em conversas e comunidades como a Humanship podem estar nos 16%. E isso estamos descobrindo juntos.”
No grupo, o tema abriu mias uma troca rica do encontro. Uma executiva presente apontou algo que Neil endossou imediatamente: o que as organizações têm feito não é redesenhar cargos, é adicionar “IA” ao final do job description existente. “Precisamos que você conheça X ferramentas. Precisamos que você seja proficiente em Y”, exemplificou. Mas o cargo em si permanece igual. Outra participante foi ainda mais longe: talvez a própria lógica de escrever job descriptions seja o problema. Se não sabemos o que o trabalho vai ser, como descrevemos antes de fazê-lo?
A discussão revelou uma diferença importante. O desafio não é acrescentar “IA” ao final de uma descrição de cargo. É repensar o próprio papel. Ou seja, redesenhar, de fato, o resultado esperado daquela função e não apenas adicionar uma nova competência técnica.
Historicamente, os job descriptionsdescrevem atividades, responsabilidadese competências. Mas, se parte da execução passa a ser delegada a agentes, para Neil, a definição do cargo agora deve ser outra: “Job descriptions vão evoluir mais para: isso é o que se espera que você produza. Não como.” A lógica por trás disso é a realidade de um time híbrido. “Idealmente, traremos pessoas que conseguem reunir dez, cem, mil agentes para cumprir os resultados para os quais foram contratadas.”
A pergunta deixa de ser como o trabalho será realizado e passa a ser qual resultado é esperado daquela função.
Neil reforçou a responsabilidade e o protagonismo do RH neste momento de tantas transformações.
Historicamente, parte do RH operou como função de suporte: alguém diz “preciso de dez engenheiros e cinco vendedores, por favor vai lá e contrata”, e o RH executa. Mas há, segundo o futurista, uma oportunidade e uma responsabilidade diferente agora.
“O RH é sobre trazer os recursos – os recursos humanos, e agora também os não-humanos – para a forma como o trabalho é realizado. Acho que há uma oportunidade enorme para o RH se tornar ainda mais estratégico e influente nas empresas.”
Se o gargalo deixa de ser a execução e passa a ser a qualidade das decisões, alguém precisa redesenhar as organizações para maximizar a qualidade das decisões humanas. Alguém precisa desenvolver pessoas não para executar melhor, mas para decidir melhor. Alguém precisa criar os contextos nos quais humanos e agentes de IA possam trabalhar de forma alinhada.
Esse alguém pode ser o RH. Mas não o RH que otimiza processos. O RH que projeta a arquitetura do trabalho. Para Neil, essa talvez seja a maior oportunidade estratégica da área.
Há um efeito colateral da transição que ninguém está discutindo ainda. Tomar decisões a partir da IA é exaustivo de uma forma que executar tarefas não é. Paradoxalmente, delegar mais não significa trabalhar menos, significa gastar menos energia executando e mais energia avaliando, direcionando e decidindo.
Quem está delegando mais para a tecnologia relata que depois de três ou quatro horas nesse novo modo – decidindo sobre o que o agente produziu, refinando, corrigindo o rumo – está esgotado de uma forma diferente do que costumava estar depois de um dia inteiro de trabalho operacional. É um sintoma novo, sem nome ainda nos relatórios de bem-estar organizacional. Pode parecer apenas mais um efeito colateral da IA. Mas talvez seja um sinal de algo muito maior. Ao longo do encontro, ficou claro que a principal transformação em curso não é tecnológica. É organizacional. A IA não está apenas mudando a forma como as pessoas trabalham. Ela está mudando aquilo que o trabalho exige das pessoas e, consequentemente, a estrutura das organizações que precisam sustentá-lo.
Se durante décadas o desafio foi aumentar a capacidade de execução, talvez o próximo ciclo seja outro: construir organizações capazes de decidir na velocidade em que já conseguem executar. Uma mudança que não começa pela tecnologia. Começa pela forma como desenhamos o trabalho, a liderança e as próprias organizações.
O Future of Work Lab é uma iniciativa da Humanship para um grupo de CHROs e diretores de RH. Os encontros são mensais, alternando formatos presencial e online, com convidados internacionais e brasileiros para discussão aprofundada sobre as forças que estão redesenhando o trabalho, as organizações e a liderança. O próximo encontro será em agosto em que discutiremos Early Talents: o futuro dos cargos de entrada e a formação da próxima geração.
Mudança deu o tom. Adaptabilidade, o caminho. #Inclusão, a ferramenta. E coragem, a força motriz. Ainda não há respostas prontas para resolver todas as questões do momento de transformação e disrupção que vivemos.
A Humanship Conference 2025 foi mais do que um evento — foi um movimento.
Futurista Neil Redding fala à Humanship sobre IA e o RH do futuro: “Acredito que haverá outra letra no lugar do ‘H’, algo diferente, que virá depois do ‘R’”
Nossos tempos pedem disrupção. Sabemos que, para acompanhar as transformações e pensar fora da caixa, muitas vezes é preciso sair da caixa.
“Matar um leão por dia é fácil. Difícil é desviar das antas.” Foi com essa máxima de cafezinho que Alexandre Pellaes arrancou risadas do público em sua participação na Humanship Conference.
Quais outras perguntas sobre Inteligência Artificial devemos nos fazer além de “será que a IA vai roubar nossos empregos”?
Josh Bersin, referência global em RH e futuro do trabalho, analisa como a IA está transformando a gestão nas empresas.
Não sei vocês, mas quando vejo um dado desses, começa a me dar uma coceira se eu não estiver fazendo algo com essa informação”, disse Luciana Carvalho, CHRO da Blip, durante o Humanship Talks.
O mais recente estudo global da Gartner, com 426 CHROs e 105 CEOs, revela que o RH está diante de uma inflexão histórica.