Mike Bechtel na Humanship Experience: futurista que lotou o SXSW desembarca no Brasil pela 1ª vez

Quinto dia do SXSW 2026, e o maior festival de inovação do mundo já tinha entregue muito quando Mike Bechtel subiu ao palco. Mas a sala estava lotada, e permaneceu assim até o fim. Agora ele chega ao Brasil pela primeira vez, a convite da Humanship.

Inventor que virou investidor, e hoje futurista, autor e professor da Universidade de Notre Dame, Bechtel tem mais de duas décadas dedicadas a transformar ideias emergentes em avanços concretos para os negócios. Por seis anos foi futurista-chefe da Deloitte Consulting, onde fundou e dirigiu o NExT, um estúdio de pesquisa que assessorou mais de 750 organizações em 38 países. Hoje é palestrante global e professor de inovação corporativa. Pouco antes da sua participação no festival, Mike anunciou a assinatura de um contrato com a Penguin Random House para seu primeiro livro, uma obra sobre florescimento humano na era da inteligência, que já nasce conectada ao que ele trará à Humanship Experience. Esta foi sua quarta edição consecutiva no SXSW.

 

No South by deste ano apresentou Ikigai em Ação: planejamento de carreira na era da IA. Como o título da palestra já diz, o ponto de partida foi o ikigai, conceito japonês que propõe a interseção entre o que você ama, no que é bom, o que o mundo precisa e o que te sustenta. Mas o que ele trouxe não foi uma fala sobre propósito. Foi uma provocação sobre o que a inteligência artificial está, de fato, liberando em nós.

 

A tese de Bechtel é que, por décadas, o mercado só abriu espaço para dois perfis: o brilhante ou o que aguenta o maçante. A IA está chegando para os dois. E, com isso, abre uma brecha que a maioria das organizações ainda não sabe o que fazer com ela: espaço para propósito real, autenticidade, individualidade.

 

Para quem lidera pessoas, a questão que fica não é tecnológica. É humana. Foi a partir desse olhar que ele conduziu a palestra em Austin, combinando dados e histórias pessoais, visão de futuro e retomada do passado. Mike sintetizou o tempo que vivemos em uma provocação que ficou na sala: “Nunca foi tão difícil ser um marinheiro, mas nunca foi tão bom ser um capitão.” Para quem lidera organizações num momento de tamanha turbulência, chegou o momento de escolher como navegar.

 

Na 2ª Humanship Experience, nos dias 24 e 25 de junho, no Royal Palm Plaza Resort, em Campinas, ele vai um passo além do que trouxe em Austin. Mike trará seu conceito de Dot Connectors e a tese é provocadora: numa era em que a IA domina tanto a especialização quanto a execução, o perfil mais valioso não será o do expert, mas o de quem consegue enxergar conexões onde os outros veem apenas pontos isolados.

Como desenvolver esse perfil e o que isso significa para quem lidera pessoas e organizações fica para junho. A entrevista que fizemos logo após sua apresentação no SXSW já dá boas pistas do que esperar. Como Mike, a conversa foi direta, com humor, sensibilidade e perguntas que ficam. Compartilhamos aqui os principais trechos da nossa conversa.

 

Humanship: Como a maneira de pensar sobre propósito e carreira muda à medida que as máquinas assumem mais tarefas humanas?

 

Mike Bechtel: Historicamente, pelo menos na minha experiência, sempre senti que havia dois caminhos para ter sucesso profissional: ou você era o melhor do mundo em algo, talvez divertido, talvez não; ou se dedicava a algo muito difícil e provavelmente muito chato. A ideia era que só dois tipos de papel geravam dinheiro: o brilhante ou o maçante. E acho que a IA está chegando para os dois. Ela é tão inteligente quanto nós nas especialidades mais complexas, e está feliz em assumir as tarefas rotineiras e repetitivas. Isso está criando mais espaço para quem está disposto a dizer: podemos encontrar mais lugar para propósito, autenticidade, individualidade, se usarmos as ferramentas para nos ajudar, em vez de apenas temer que elas venham para os empregos.

 

H: Nós falamos para líderes de RH que já são seniores, muitos familiarizados com o ikigai. O que dizer a quem já está no topo?

 

MB: Acredito que a técnica é atemporal. A capacidade de refletir, e de refletir de novo, deveria ser um processo contínuo: anualmente, ou pelo menos a cada dois anos. O que é muito interessante com a chegada da tecnologia é que esse processo não precisa mais ser tão pesado. Até agora, era um exercício no papel, com muito coçar de cabeça. Antes parecia muito pesado. Começar a usar a IA para ajudar com o desdobramento disso pode transformar o ikigai em algo como uma higiene trimestral, talvez até mensal.

 

H: Como jornalista e pesquisadora de futuros, gosto muito da sua provocação que devemos ter mais “e se”. Você acredita que os líderes de RH precisam incorporar mais “e se” no dia a dia?

 

MB: Sim. Numa era de IA, as regras e ortodoxias organizacionais nos atrasam mais do que nunca. A frase que gosto de usar, minha citação, digamos assim, é: a fita vermelha* nunca esteve tão vermelha[red tape has never been redder]. Os departamentos de RH precisam ser mais inclinados, agora, a pensar em como podem ser criativos e imaginativos, em vez de proteger o “jeito legado” de fazer as coisas. Pode soar provocativo, mas há uma expressão em inglês americano: quanto maior eles são, mais dura é a queda. Estou sentindo isso com a IA. Se você é uma grande empresa com muitos humanos, é muito difícil virar o navio em direção a esse futuro. Então você precisa encontrar formas de se tornar mais ágil e imaginativo.

 

*A expressão fita vermelha indica as regras, processos, aprovações e burocracias intermináveis que travam as coisas dentro das organizações. A origem é literal: documentos oficiais antigamente eram amarrados com fita vermelha.

 

H: Seu livro é sobre florescimento humano na era da inteligência. O que significa florescer num mundo cada vez mais moldado pela IA?

 

MB: Significa uma porcentagem maior do tempo dedicada à criação e menos à competição. Mais tempo pensando amplamente e conectando disciplinas, e menos em especializações muito profundas. Por 25 anos, pelo menos aqui nos Estados Unidos, talvez no Brasil também, houve um foco enorme em STEM, em especialização. [STEM é usado para designar Science, Technology, Engineering and Mathematics:Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática] Acho que de certa forma esse não é mais o bilhete premiado. O futuro vai precisar ser sobre pessoas, sobre relacionamentos e sobre conectar os pontos.

 

H: E estamos prontos para isso?

 

MB: Bom, acho que depende do negócio. Se você é uma empresa legado, que sempre se saiu bem com procedimentos operacionais padrão, melhores práticas e uma cultura de “cada um por si”, vai enfrentar mais dificuldade. Se você é o tipo de negócio cheio de ideias, mas historicamente com dificuldade de execução, vai se sair muito bem, porque as máquinas podem cuidar da execução.

 

H: Você sugere que os “conectores de pontos” serão mais valiosos do que os “perfeccionistas de pontos”. O que líderes e organizações devem fazer hoje para desenvolver mais conectores dentro das suas equipes?

 

MB: Toda vez que uma organização descobre que pode economizar dinheiro com IA, existe um momento importante em que ela precisa dizer: espera. Eu uso a expressão Ozempic corporativo, ou GLP-1 corporativo. Se você enxerga a IA como uma ferramenta de corte de custos, para “enxugar e emagrecer”, para fazer o trabalho de ontem mais barato e mais enxuto, vai se dar mal. Se você enxerga a IA como uma oportunidade de, cada vez que automatiza, liberar dinheiro e pessoas talentosas para elevar o nível, isso sim faz sentido. Meu conselho para um líder: não pare na economia de custos. Reinvista isso em inovação e crescimento.

 

H: Você mencionou um “painel de carreira” que usa há mais de 20 anos. Que métricas as pessoas deveriam acompanhar para construir carreiras mais intencionais?

 

MB: Para mim, o conceito dos quatro “Ps” do ikigai – Paixão, Habilidade (Prowess), Propósito e Lucro (Profit) – é a bússola que indica para onde você precisa ir. Mas o painel é o que te diz quando virar. Por isso, para mim, são seis dimensões: primeiro compensação e recompensas, porque trabalhamos para viver, não vivemos para trabalhar, e se isso não estiver certo, nada estará; em seguida o ambiente e os benefícios; terceiro as pessoas ao seu redor, você precisa estar rodeado de quem te eleva e não quem te derruba; em quarto a missão, você se sente alinhado com a empresa ou se sente um zumbi?; quinto é a natureza do trabalho em si, você gosta do que faz ou é um suplício?; e, por fim, o aprendizado, você está construindo potencial para o seu futuro? Se você responde isso uma vez na vida, é um pouco interessante. Mas se você acompanha isso a cada seis meses pelo resto da vida, é como acompanhar seu batimento cardíaco, você vai saber quando está doente e quando precisa mudar.

 

H: Desde que usa o painel há vinte anos, o que mudou? O que você teve que repensar para mantê-lo relevante em 2026?

 

MB: O maior para mim foi a dimensão das pessoas. Uma das coisas estruturais que acredito estar acontecendo é que nunca foi tão difícil ser empregado, mas nunca foi tão bom ser um empreendedor. Essa ideia de que trabalho precisa ser um emprego num escritório com colegas está cedendo cada vez mais espaço para um indivíduo numa rede de negócios com clientes e parceiros. Então, “você gosta das pessoas?”, que antes costumava significar meus colegas de trabalho. Hoje, para tantos de nós, significa clientes, parceiros, o seu ecossistema inteiro.

 

H: Se você pudesse deixar os líderes com um único conselho para construir organizações mais humanas e promissoras na era da IA, qual seria?

 

MB: Na minha experiência, há três capacidades humanas duradouras que ainda importam de verdade. Uma é a engenhosidade, a criatividade, no sentido de  encontrar novas formas inteligentes de agregar valor. Isso nunca sai de moda. A segunda é a empatia, quem melhor do que as pessoas para conhecer e conviver com a dor e a necessidade de outro ser humano? E a terceira, mesmo com toda a conversa sobre IA agêntica e agentes autônomos, é a iniciativa. A maioria desses sistemas ainda precisa ser prompted, ainda precisa ser provocada. As pessoas não precisam esperar para ser mandadas, elas podem simplesmente ir e fazer. Então encontrar novas formas de ajudar outros humanos sem esperar que te peçam para fazer: isso é empreendedorismo. E é um conselho atemporal.

 

H: Você perguntou: “e se os robôs não vierem para ‘acabar com a gente’?” Eles estão vindo ou não?

 

MB: Não, não. Sabe, a nossa geração foi criada com filmes em que, assim que os robôs ficam inteligentes, eles ficam maldosos. Na minha experiência, e acho que a ciência respalda isso, a IA não é sentiente (consciente). E não está em posição de buscar vingança ou tomar esse tipo de iniciativa maligna. Eu realmente a vejo como estatística com esteroides. Vai chegar para alguns papéis? Sim. Algumas pessoas vão perder empregos? Com certeza. Mas não existem mais limpadores de chaminé. É a ordem natural das coisas. Estamos apenas passando por uma redistribuição de onde está o valor agregado, da mesma forma que minha avó não entendia meu trabalho como consultor. Não vou reconhecer o trabalho que meus netos farão como trabalho.

 

H: Talvez esses trabalhos ainda nem existam?

 

MB: Exato, ainda não existem. E vão parecer muito mais divertidos do que com o nosso trabalho hoje. Da mesma forma que meu avô, que trabalhava numa siderúrgica, acharia que tive muita sorte de trabalhar num escritório climatizado pensando em ideias e contando histórias.

 

Mike Bechtel estará na 2ª Humanship Experience, dias 24 e 25 de junho, no Royal Palm Plaza Resort, em Campinas. Pela primeira vez no Brasil, a convite da Humanship. Uma oportunidade única de ouvir ao vivo um dos futuristas mais requisitados do mundo, ao lado de 150 CHROs das principais empresas do país.

 

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