Mudança deu o tom. Adaptabilidade, o caminho. #Inclusão, a ferramenta. E coragem, a força motriz. Ainda não há respostas prontas para resolver todas as questões do momento de transformação e disrupção que vivemos.
Não se trata mais de prever o amanhã, mas de decidir, com consciência, como usar a tecnologia para colocar o humano no centro
Vivemos em tempos de paradoxos profundos. Acontece que o mundo de hoje desafia a lógica binária a partir da qual fomos acostumados a pensar. O que eventos como o SXSW vêm mostrando, e que a 2ª Humanship Conference reforçou, é que essa forma de pensar já não dá mais conta da complexidade do presente.
Pensar, aliás, nunca foi tão necessário e a repetição da palavra aqui vem com intenção. O presente nos convoca a pensar (e a agir!) com o foco de recolocar o humano no centro, tendo a conexão como ponte e impulso.
A 2ª Humanship Conference reuniu 450 executivos no 033 Rooftop do Teatro Santander para discutir esse tema central: em tempos de IA, como construir o futuro do trabalho desejável centrado no humano. As reflexões vieram de diferentes perspectivas do que foi visto e vivido no SXSW 2026.
Um dos primeiros pontos dessa jornada veio com a provocação de Heidi Brooks, professora sênior de Comportamento Organizacional na Yale School of Management e também painelista do festival.
Para ela, diante de tantas transformações do mundo atual, “não podemos tratar as pessoas como um problema a ser resolvido”. O perfil resolvedor de problemas, comum dentro das organizações, é o que acende esse alerta. “Quando tratamos humanos como um problema a ser resolvido, perdemos muito do que podem trazer e corremos o risco de criar ainda mais problemas, não menos.”
Além de Heidi Brooks, também subiu ao palco Sabina Deweik, futurista e pioneira em cool hunting no Brasil. Ao longo do dia ainda tivemos contato com os assuntos mais falados em Austin, análises sobre o futuro do trabalho e employee experience, e as perspectivas de CHROs e CEOs que compartilharam os insights vindos do South by Southwest.
Mudança de foco
Este que é um dos maiores festivais de inovação e criatividade do mundo, também é referência sobre o que está por vir em áreas como cultura, tecnologia, comportamento e o mundo do trabalho. A edição de 2026 marcou uma mudança de direção. Impulsionado pela revolução tecnológica, o SXSW deslocou seu tradicional foco em previsões de futuro para as tensões do presente.
Não se trata mais de escolher entre uma coisa ou outra. Trata-se da nossa capacidade de sustentar tensões. Não são mais paradoxos ou previsões que vão nos pautar, mas a forma como navegamos as muitas convergências da atualidade, como destacou Amy Webb, futurista e uma das principais vozes do festival. O caminho é saber operar no “e” e não no “ou”.
Mais do que onde a IA pode chegar, as sessões do SXSW trouxeram à tona o que a tecnologia está fazendo com os seres humanos, e aquilo que é, essencialmente, nosso como pessoas: relações, conexões, imaginação. É aí que o RH emerge como grande orquestrador da transformação.
Nesse contexto a Humanship Conference mostrou perspectivas. Ao reunir visões complementares, o evento ampliou a compreensão do presente e estimulou reflexões práticas sobre como navegar nesse contexto e construir com ação, autonomia e responsabilidade.
Como destacou Luiz Drouet – fundador da Humanship, da Share People Hub e da Prosper Digital Skills –, “a provocação constante é como construímos o futuro desejável a partir das decisões que tomamos hoje.”
Esse foi o grande convite da Humanship Conference: proporcionar trocas para inspirar, conectar, aprofundar e apoiar decisões mais conscientes sobre o futuro do trabalho desejável. A seguir, os principais destaques.
O ser humano é único capaz de sustentar contradição Sabina Deweik, que há cinco anos frequenta o SXSW e já palestrou no festival, abriu sua palestra na Humanship Conference com uma pergunta: quando você pensa no futuro, qual é a primeira emoção que vem na sua cabeça? Entre as respostas da plateia estavam medo, animação, ansiedade, entusiasmo, otimismo e incerteza.
Se por um lado a futurofobia cresce com a velocidade das mudanças e as policrises ampliam a complexidade e a ansiedade, por outro a criatividade, a imaginação, a emoção e a conexão emergem como diferencial humano.
A futurista destaca que, quando as policrises convergem, os paradoxos emergem. A boa notícia, segundo ela, é que o único ser no planeta capaz de sustentar contradição é o ser humano.
Hoje, a IA ainda nos diferencia por estarmos em níveis distintos de maturidade em relação à tecnologia. Mas, em breve, a inteligência artificial será commodity. Um exemplo disso é o dado alarmante compartilhado por Sabina: em 2026, 90% do conteúdo online será criado por IA.
“Aquilo que vai nos diferenciar é aquilo que nos torna intrinsecamente humanos. Tudo o que uma máquina não pode fazer por nós, que é sentir. Tocar alguém, colaborar, criar, a criatividade verdadeira, empatia, vulnerabilidade.”
Ela listou os quatro “Is” aos quais devemos dar cada vez mais espaço e valor no nosso dia a dia:
“Pensar é o ativo mais estratégico que a gente pode ter” Em meio à ameaça à nossa soberania cognitiva o que deve falar mais alto é o senso de agência, de escolher ativamente o que queremos consumir e como desejamos agir, sem conformismo com o que é posto.
Não podemos nos sujeitar à comodidade intelectual que vem com a IA e nos ameaça a cair no slop, termo muito usado no SXSW que remete à superficialidade do conteúdo gerado por IA, rápido, eficiente, abundante e raso.
“Diante de todo esse paradoxo, a IA não vai substituir pessoas, mas vai substituir a mesmice, a mediocridade.” Aí a importância do nosso pensamento crítico e agência. “Pensar é o ativo mais estratégico que a gente pode ter.”
Diante disso, a atuação do RH se amplia. Não deve apenas acompanhar a transformação, mas garantir que ela aconteça sem perder aquilo que nos torna, de fato, humanos, a nossa capacidade de criar futuros com consciência, propósito e agência. “A grande transformação se dá para pessoas e por pessoas”, destacou Sabina.
A futurista encerrou com o importante exercício de esperançar: “Quero convocar vocês a retomar essa grande tecnologia que a gente tem que é imaginar futuros mais positivos, mais abundantes, mais sustentáveis. E que, sobretudo, a gente possa ter futuros com mais felicidade, mais vínculos, mais conexões”.
Qual futuro você quer imaginar e realizar?
Os valores que moldam a decisão
Se Sabina nos convidou a ampliar o olhar sobre o presente e a reconhecer os paradoxos como parte da realidade, as discussões ao longo do evento trouxeram uma provocação complementar: como essa complexidade se manifesta, na prática, dentro das organizações e, sobretudo, nas decisões que os líderes precisam tomar todos os dias.
A fala de Tiago Pereira – fundador da Oddly Experience, empresa que fez a curadoria da Humanship Journey para o SXSW – trouxe à tona a sua análise do festival a partir de um dos grandes desafios do agora: como equilibrar performance e humanidade em um cenário cada vez mais pressionado por velocidade, tecnologia e resultados.
Ele citou as três principais convergências destacadas por Amy Webb: inteligência artificial, robótica e biotecnologia. Convergências que podem levar a uma força de trabalho ilimitada, sobre-humana.
Human-centric e o sentido da conexão
O ponto central, segundo ele, não está apenas em adotar novas ferramentas ou metodologias, mas em repensar como as decisões estão sendo tomadas e a partir de quais valores. Os humanos estão, de fato, no centro das organizações? A abordagem human-centric, como destacou, foca em emoções, valores, necessidades humanas, para além dos papéis de “cliente” e “colaborador”. É isso que vemos e vivemos nas companhias?
Um dos caminhos, propostos por Tiago, é focar no acolhimento dentro das organizações. A referência é o livro “Hospitalidade Irracional”, de Will Guidara, que trata, essencialmente, de conexão. Assim, a hospitalidade entra como uma vantagem competitiva. “Porque quando a gente tem conexão gera memória e emoção reais, as pessoas se aproximam, elas geram lealdade.”
E é sempre importante lembrar, segundo Tiago ao citar Simon Sinek, que existem coisas, existem aspectos humanos que são à prova de IA. “E isso vai ser muito importante para o mundo que a gente está construindo.”
Employee Experience e perigo da erosão silenciosa
A sensação de acolhimento da boa hospitalidade está diretamente ligada à experiência do colaborador. E foi a partir desta lente que Fred Lacerda compartilhou o que aprendeu no SXSW e como isso se conecta com a recém-lançada pesquisa “Panorama da Experiencia do Colaborador 2026”, realizada pela Pin People. De acordo com o estudo, “o maior driver de engajamento no trabalho não é o salário, não são os benefícios, não é o propósito declarado e sim as pessoas se sentirem valorizadas”, afirmou Fred. Em outras palavras, é o impacto do próprio trabalho que influencia a experiência e o engajamento das pessoas.
E a satisfação com o trabalho depende de diferentes fatores, muito falados no SXSW e pouco falados nas organizações:
– Senso de importância
ou mattering Destacado por Jennifer B Wallace no festival, mattering está ligado a como as pessoas sentem que são importantes. Nas organizações o movimento é como fazer com que os colaboradores sintam que importam e que são necessários. Vale lembrar que a IA chega como uma ameaça à necessidade e importância humana.
– Saúde Social e Pertencimento
Saúde social muito divulgada por Kasley Killam, e pertencimento, destacado por Rosanna Durruthy também são decisivos para que a pessoa entregue o seu melhor ou se começa, silenciosamente, a se reter. “Pertencimento não é gentileza, pertencimento é o que define se as pessoas vão de fato entregar o melhor de si no trabalho”, reforçou Fred.
– Segurança para se expressar
Amy Gallo, que apresentou uma sessão sobre como ter conversas difíceis, enfatizou que as pessoas precisam se sentir seguras para falar. Ela apontou que as organizações superestimam o custo de falar e subestimam o custo de calar.
– Postura da liderança sob pressão
Ao falar sobre líderes narcisistas Brené Brown e Adam Grant destacaram o risco desse tipo de liderança para as organizações, já que ela tende a proteger o próprio ego e não a missão. Sabina Nawaz complementou que a verdadeira experiência do colaborador é moldada pelo comportamento do líder no seu pior dia, quando está sob muita pressão
– Resistência à mudança vem do que já existe
Jeff Skipper destacou que o problema não é a mudança em si, mas a falta de sentido, segurança e direção. Assim, a resistência à mudança vem de problemas antigos, de liderança, de narrativa de mudança ou até do próprio design organizacional.
“O SXSW não me trouxe nenhuma resposta pronta, Mas me deixou com uma convicção muito grande de que o maior risco para as organizações, nos próximos anos, não é sobre automatizar tarefas, e sim sobre essa erosão silenciosa”, encerrou Fred. O risco não está na tecnologia, mas na erosão silenciosa que deixamos de perceber nas relações.
Se até aqui as discussões nos ajudaram a compreender as tensões do presente entre tecnologia, humanidade e conexão, a fala de Drouet, com seu olhar para as discussões sobre o futuro do trabalho no SXSW, apontou para um próximo passo: como transformar consciência em ação.
E essa transformação começa com agency.
Mais do que um conceito recorrente no SXSW, agency aparece como uma convocação para assumir a autonomia com responsabilidade na construção do futuro do trabalho. Não podemos nem devemos apenas reagir à tecnologia, mas atuar ativamente sobre ela.
Esse é o ponto de inflexão. Porque, em um cenário em que o custo de execução tende a zero, o trabalho humano deixa de estar na operação e passa a estar na orquestração de agentes, apontado nas sessões de Michele Schneider e Ian Beacraft. O papel deixa de ser executar e passa a ser desenhar, coordenar e decidir. A cultura ganha ainda mais relevância.
E é justamente aí que agency e orquestração se encontram. Se o futuro do trabalho exige arquitetos de sistemas, o RH precisa assumir o papel de regente dessa transformação, não como suporte, mas como protagonista. Drouet citou a conversa com Ian Beacraft onde o futurista afirmou que em sua experiência, quando a implementação e adoção de IA são protagonizadas pelo RH, as organizações têm mais sucesso.
É preciso humanizar a tecnologia antes que ela nos desumanize
As sessões de Karen Howe, autora do best-seller “Empire of AI”, Rana el Kaliouby, Cheryl Miller Houser, Brené Brown, e Susan David, destacadas por Drouet, foram algumas das que abordaram a centralidade humana, pertencimento, vulnerabilidade e agency. “Susan David falou do papel que ela procura desempenhar para humanizar a tecnologia antes que ela nos desumanize. Essa frase me marcou bastante”, afirmou o fundador da Humanship.
Para tomarmos posse da nossa agency e protagonizar a transformação de humanizar a tecnologia, Drouet apontou alguns caminhos concretos. Devemos:
Esse último ponto, em especial, revela uma lacuna importante no SXSW. Apesar de toda a discussão sobre inovação, ainda são poucos os espaços que aprofundam o impacto social da inteligência artificial, especialmente sobre aqueles que correm maior risco de serem deixados para trás. Mas isso não pode ser motivo para evitar o debate. Mais um ponto onde agency se faz necessária.
Orquestrar o futuro do trabalho não é adotar novas tecnologias, mas fazer escolhas conscientes e responder por elas.
Para as CHROs: quanto mais tecnologia, mais humano
No painel que reuniu CHROs, o impacto da inteligência artificial apareceu não como tendência distante, mas como força que já redesenha o presente das organizações.
Para Luciana Domagala, da Ipiranga, a mudança é estrutural: “Não é um novo sistema, é a nova forma de operar a empresa. A forma como a gente desenvolve a estratégia, como desenha cultura, que cultura organizacional vamos ter a partir disso”.
Para isso, segundo Luciana, vamos precisar desenvolver novas habilidades de gestão, além de integrar os agentes, será preciso saber se comunicar bem com eles, fazer um bom onboarding, desenvolvê-lo, dar feedback e do lado humano estimular cada vez mais o pensamento crítico, a criatividade.
Aqui, o RH se expande, como destacou Felipe Calbucci, CEO da Total Pass e mediador do painel: “O RH vai ganhar ainda mais relevância”, ao integrar a gestão de pessoas e de agentes de IA em novos modelos de operação, cultura e liderança.
Novos tempos pedem novo mindset
E essa nova integração só reforça o paradoxo central, como destacou Caroline Carpenedo, da Suzano: “Nunca se falou tanto de tecnologia e ao mesmo tempo nunca se falou tanto de humano. O que nos traz propósito é aquilo que a gente pode pensar e criar, impactar, olhar no olho, empatizar e ajudar uma pessoa a sair aliviada.”
A partir da conversa entre as CHROs fica cada vez mais claro que o futuro não depende apenas de ferramentas, mas das nossas escolhas sobre como agir. “Saí do SXSW com a confirmação que a gente precisa relaxar, abrir a cabeça. Tecnologia (e futuro) não é uma questão de lugar, não é uma questão de ferramenta, é uma questão de mindset, de como a gente está preparado para experimentar, se abrir, ver o que vem de novo e tirar o melhor disso”, afirmou Érica Barbagalo, da Bayer. É preciso aprender e desaprender continuamente.
Para CEOs: senso de urgência para um redesenho necessário
Quando o assunto transformação chega na mesa dos CEOs o que emerge é a necessidade urgente de adaptar modelos organizacionais arcaicos. O papel central continua sendo humano, com mudanças protagonizadas pelo RH. O que o painel com Manoela Mitchell, da Pipo, Sonia Keiko, da Engemon, e Paulo Samia, do UOL, – mediado por Filipe Ducas– mostrou é que a IA impõe um senso de urgência para reavaliar e redesenhar estruturas, processos e funções.
É preciso uma visão sistêmica e colaborativa, quebrando os silos dos departamentos para integrar a IA de forma eficaz. “Essa é a grande quebra que eu entendo que a IA tem transformado dentro das companhias”, afirmou Sonia. E questionou: “Por que não criar mais colaboração? Por que não criar um trabalho onde você plugue em outros ecossistema a outras pessoas e traga isso incorporado para dentro da sua empresa?”.
Coragem como habilidade do futuro
O sucesso ainda depende dos talentos certos, com o desenvolvimento de habilidades como autonomia, adaptabilidade e pensamento crítico. “Talvez a definição do que é esse talento certo mude um pouquinho nessa nova era”, afirmou Manoela. E atravessar essa nova era também demanda coragem.
“A gente precisa de muita coragem para viver esse momento de transformação. E coragem é um sentimento contagioso. Quanto mais a gente está com as pessoas, quanto mais a gente vai tendo coragem como grupo, mais coragem temos para atravessar esse momento”, afirmou a CEO da Pipo Saúde.
É preciso coragem para seguir em frente, mas também para dar um passo para trás quando for necessário. Ainda há muito erro ou falta de conhecimento em relação ao uso de IA. “Nosso papel como CEO é dar um passo para trás e fazer um letramento inicial de IA para todo mundo tirar o máximo possível disso”, afirmou Paulo. E só depois começar a colocar em prática. “Realmente aplicar, primeiro na sua produtividade básica, depois no produto do seu negócio para aí, sim, apresentar para o mercado uma solução mais evoluída”.
Para os CEOs, o RH deve atuar cada vez mais como um integrador, de pessoas, agentes e aprendizados. Cabe à área de pessoas inspirar coragem nos times e, junto aos demais líderes, criar condições – com ferramentas, treinamentos, autonomia – para a construção do futuro do trabalho desejável.
Se ao longo do evento fomos convidados a refletir sobre tecnologia, agency e o papel do RH como orquestrador do futuro, foi com Heidi Brooks na conversa de Fireside Chat com Guillermo Gomez, CRMO da Flash, que a discussão ganhou uma camada mais profunda e, talvez, mais desconfortável. Porque, segundo ela, no fundo, não estamos diante de um problema novo.
Estamos diante de um problema antigo que nunca soubemos resolver muito bem.
Heidi é professora da Yale School of Management há 20 anos. Sua disciplina “Dinâmicas Interpessoais” é uma das mais disputadas do MBA da instituição. Por isso tem propriedade ao afirmar que, dentro das organizações, fomos treinados para otimizar, acelerar, resolver.
O mantra do “mais, melhor e mais rápido” moldou a forma como trabalhamos e também como nos relacionamos dentro das empresas. Nesse contexto, há um risco silencioso já citado: começar a tratar as pessoas como problemas a serem resolvidos.
E, como alerta Heidi, quando fazemos isso, não apenas perdemos o que as pessoas têm de mais potente, como criamos ainda mais problemas.
O paradoxo central não está na tecnologia. Está na tensão, já conhecida, entre as demandas instrumentais do negócio e as necessidades humanas. A diferença é que, agora, a IA está forçando essa questão com uma intensidade inédita.
“O novo problema é o velho problema: nunca fomos particularmente bons nas interfaces humanas dentro das organizações”, afirmou.
Um dos deslocamentos mais importantes propostos por Heidi é sobre a própria ideia de liderança. Nos acostumamos a pensar liderança como algo individual, como competências, habilidades e comportamentos do indivíduo. Mas liderança, na prática, é uma função social. “Ela não está apenas em nós. Está entre nós. No espaço entre nós”.
Ela explica que esse “espaço entre nós” é onde tudo acontece: é onde as pessoas se sentem seguras ou não, engajadas ou esgotadas, livres para contribuir ou limitadas a se adaptar. “Tudo isso, o que é seguro, o que é possível, como as pessoas se sentem no trabalho são normas. Não individuais, mas experiências de grupo. São normas sociais sobre o espaço que habitamos.”
E esse espaço não é neutro. Ele é construído diariamente, nas microinterações, nas conversas difíceis evitadas, nas discordâncias que não acontecem, naquilo que não é dito.
Organizações costumam ser eficientes em discutir tarefas, metas e processos, mas ainda têm enorme dificuldade em lidar com o que acontece nas relações. E, paradoxalmente, é justamente aí que mora a qualidade das decisões, da colaboração e da inovação.
Evitar esse espaço tem um custo alto: menos aprendizado, menos energia, menos agency.
Segundo Heidi, se há um lugar onde essa tensão se materializa de forma mais evidente, esse lugar é o RH. Hoje, a área está exatamente na interseção entre a pressão por resultados e a experiência humana. E, para ela, isso não é um detalhe, mas um ponto de influência.
O desafio não é apenas implementar programas ou acompanhar tendências. É algo mais profundo: criar condições para que experiências humanas mais saudáveis, seguras e significativas aconteçam no dia a dia.
Porque a experiência humana no trabalho não se instala como um sistema. Ela se constrói nas relações, nas normas invisíveis, nos comportamentos que observamos na prática e não apenas no que é falado, especialmente daqueles que lideram.
Mais do que desenhar iniciativas isoladas, cabe influenciar o ambiente onde as pessoas trabalham, aprendem e se relacionam. “Mas não chegamos nessa zona de aprendizagem excluindo a complexidade. Isso só cria ansiedade ou apatia. Porque a complexidade é onde as pessoas têm experiências e sentimentos”, destaca Heidi.
Para ela, a questão não é como fazer uma organização sem fricção na experiência humana. “A pergunta é como nos tornamos melhores em sermos humanos em organizações complexas, difíceis e, às vezes, maravilhosas.”
Por isso é preciso fortalecer a segurança psicológica, ampliar o espaço para diálogo, sustentar a complexidade e, sobretudo, desenvolver a capacidade de olhar para esse “espaço entre nós” que tantas vezes é ignorado. E isso vale para os dois times dos CHROs. Para Heidi a alta liderança de RH tem o time que lidera e o time do qual fazem parte.
“Você deve pensar no relacionamento desses times. Como te faz sentir e como impacta o seu jeito de liderar. Faz com que você se abra e tenha vontade de experimentar, aprender e assumir os desafios de IA com coragem ou com mais trepidação? E como você contribui para essa dinâmica nos times?”
Se a tecnologia está redesenhando o trabalho, ela também está nos obrigando a encarar uma pergunta essencial: o que significa ser humano, e trabalhar bem como humano, nesse novo contexto?
Talvez a resposta não esteja em eliminar a complexidade, mas em nos tornarmos melhores em lidar com ela. Melhores em escutar sem precisar resolver imediatamente. Melhores em sustentar tensões sem simplificá-las. Melhores em criar espaços onde as pessoas possam, de fato, aparecer por inteiro.
Porque, no fim, o futuro do trabalho não será definido apenas pelas ferramentas que usamos, mas pela qualidade das relações que construímos. “Para termos a capacidade de ver o que está acontecendo, nomear, potencialmente interromper e talvez direcionar o trabalho para uma experiência humana mais robusta e saudável.”
Sejamos agentes de influência e assumamos com coragem a nossa responsabilidade de ação, a nossa agency. “Precisamos realmente nos posicionar para como queremos nos sentir e como queremos tratar uns aos outros e o que significa defender isso nas nossas organizações. Tenho esperança de um sonho melhor que a gente possa viver.”
Mudança deu o tom. Adaptabilidade, o caminho. #Inclusão, a ferramenta. E coragem, a força motriz. Ainda não há respostas prontas para resolver todas as questões do momento de transformação e disrupção que vivemos.
A Humanship Conference 2025 foi mais do que um evento — foi um movimento.
Futurista Neil Redding fala à Humanship sobre IA e o RH do futuro: “Acredito que haverá outra letra no lugar do ‘H’, algo diferente, que virá depois do ‘R’”
Nossos tempos pedem disrupção. Sabemos que, para acompanhar as transformações e pensar fora da caixa, muitas vezes é preciso sair da caixa.
“Matar um leão por dia é fácil. Difícil é desviar das antas.” Foi com essa máxima de cafezinho que Alexandre Pellaes arrancou risadas do público em sua participação na Humanship Conference.
Quais outras perguntas sobre Inteligência Artificial devemos nos fazer além de “será que a IA vai roubar nossos empregos”?
Josh Bersin, referência global em RH e futuro do trabalho, analisa como a IA está transformando a gestão nas empresas.
Não sei vocês, mas quando vejo um dado desses, começa a me dar uma coceira se eu não estiver fazendo algo com essa informação”, disse Luciana Carvalho, CHRO da Blip, durante o Humanship Talks.
O mais recente estudo global da Gartner, com 426 CHROs e 105 CEOs, revela que o RH está diante de uma inflexão histórica.